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SONHOS
DESFALECIDOS
Cleide
Canton
Onde encontrarei,
meu Deus,
ouvidos para meus
sonhos invernais,
tão distantes dos
normais,
tão fora do
contexto temporal,
incidentes num
mundo ocasional?
Já não sinto
gloriosa a demanda
mutilada,
desacreditada e claudicante,
porque
falso é o dia de sol,
incerto o vento
cantante
que outrora levava
ao norte
augúrios de boa
sorte.
Inerte, visto a
honra, a dignidade,
visto a parca
esperança
que se debate em
suspiros frouxos,
já quase
moribunda
na chama fraca da
justiça humana,
tão massacrada e
vilipendiada,
extorquida e
esquartejada,
mostrando o luto
que a envolveu
por obra de outros
como eu.
Ah! Deus
meu!
Perdoa este
momento de fraqueza,
estas palavras
encharcadas de rudeza,
esta vergonha que
me cobre,
esta certeza de
quase nada ter feito,
esta dor que não
me sai do peito.
A voz já
alquebrada e rouca
ainda tenta gritar
para a platéia
muda,
(talvez a
julgar-me louca)
que não
percebe
que perdeu-se pelo
caminho,
que permitiu-se
guiar
por mãos
inescrupulosas,
que deixou-se
contaminar
pelo joio da
glória do individualismo,
que esqueceu sua
prudência
e desprezou a
própria consciência
quando não
valorizou a sua História,
quando
desrespeitou
as regras da
própria natureza
e
entregou-se às garras da correnteza
que a carrega a
abismos vazios
neste mundo onde
jazem os brios.
Perdoa-me,
Senhor!
Já nem mais sei se
sou digna
de implorar o teu
penhor!
SP,
24/03/2006
1:10 horas
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