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QUE TEMPOS SÃO ESTES?
Cleide Canton
( em 24 de abril de 2008)
Por que sou obrigada a ver e
conviver com essa degradação humana, com essa onda de insensatez, com
essa total inversão de valores, com esse ódio que cada qual abraçou pelo
seu semelhante, visto que só o hoje é o que vale, só o "eu" é
importante? Que mundo é este? Que espécie de convívio degradante o bicho
homem escolheu para usufruir da dádiva de "viver"? Encolhido em sua
casca, numa total ausência de coragem, numa aceitação tácita dos vícios
que corrompem a sociedade e diretamente o atinge, o homem não reage, não
luta, entregue ao poder cego que constrói seus alicerces sob o manto de
uma justiça falida e inoperante, porque o povo preferiu, na sua santa
imbecilidade, achar que apenas Deus deve operar o milagre da
transformação. Por certo, esse aí não é o "meu Deus". O "meu Deus"
deu-me de presente, toda a capacidade de raciocínio, as opções de
escolha, os instrumentos para que eu desfrutasse da maravilha que
poderia ser o convívio humano. O "meu Deus" faz milagres em mim quando
enfraqueço, mas tenho certeza de que espera de mim, no mínimo, que eu
percorra os caminhos do bem e da verdade.
E me vejo perdida num mundo do
qual não consigo fazer parte, não porque não queira, mas porque o
cansaço me domina, as decepções me angustiam, a passividade que se
generaliza está estendendo as garras sobre mim fazendo-me pensar que
nada posso, que nada fiz, que nada faço. Pior ainda, que "nada mais
poderei fazer"... Chegou o momento de que necessito de um milagre. Já
não tenho mais ousadia na voz, o frescor da juventude, a força dos
braços para sustentar um cajado. Restou-me a palavra escrita que se alia
à vontade de acabar com esses desvios que estão nos levando a um fim
trágico. Mas, o que são palavras, para a maioria pacífica e inoperante?
Frutos do pensamento que não se adéqua à modernidade? Desabafos
resultantes de desgastes emocionais? Falta-me pouco para ser chamada de
louca, ou de "burra" talvez, visto que a maioria não está "nem aí para
nada". No entanto, não morreu em mim o desejo de tentar, e tentar, e
tentar... Não sei o quanto ainda posso, só sei que posso. Portanto, você
aí que me lê, não pense que quero mudá-lo. O que eu desejo somente é que
você "PENSE", que procure entender a gravidade de se enxergar tudo isso
como NORMAL. E lembre-se que o que digo a você é o mesmo que estou
dizendo a mim, porque somos iguais, perambulando no meio dessa
massificação que, na maioria das vezes, nos torna cegos, mudos e
inoperantes.
Você, homem, tão voltado para
o seu luxo e conforto, faz do emprego e da luta pela subsistência, pelo
"mais", por tudo o que a matéria lhe proporciona de prazer, uma
verdadeira obsessão. Esquece a sua base, a sua esposa, os seus parentes,
os seus amigos. Esquece que eles precisam da sua atenção, do seu amor,
da sua presença, da sua constância, do seu exemplo, muito mais dos que
os reais que você lhes oferece no final do mês. Claro que todos precisam
disto, mas não como objetivo único, como se dele dependesse todos os
demais. E você, que fala tanto em ser feliz, esquece que a felicidade é
um estado de espírito e que, estado de espírito só se fortalece quando
for alimentado com o amor e o amor implica em doação. Se você se
doa somente ao trabalho (que é apenas uma das necessidades do ser
humano) que tipo de felicidade pode dar a si mesmo? Você, que fica tão
emocionado ao tomar nos braços o seu primeiro filho, desconhece que essa
emoção precisa "continuar" através de demonstrações, não só de
presentes, mas pelo fortalecimento desse laço, dessa união. Esquece que
a sua presença é "marcante" e imprescindível? Esquece que esses laços
precisam ser fortes para formar sua prole consciente para não se deixar
levar por essa turba social inconseqüente, para que não se perca no
caminho, para que não se junte a esse bando de despreparados que caminha
para um fim trágico que ninguém deseja, mas também nada faz para
impedir? Você, na ânsia de ser feliz, esquece toda a sua vida, o seu
lugar, a sua "construção" e se entrega a qualquer paixão como se
felicidade fosse apenas um prazer momentâneo. E vai amargar o desgosto
depois. Algum imbecil disse uma vez que não haverá problema algum para
os filhos de pais separados e os "interessados" aplaudiram porque era de
seu interesse. Virou moda. O conveniente gritou mais alto que a verdade.
Basta observar. Olhe ao redor, confira. Olhe lá dentro de você.
Pergunte-se? Encontre soluções.
Você, mulher, que tanto lutou
pela sua "independência", "sua igualdade", sua legitimidade como cidadã,
sua atuação na vida pública, por acaso esqueceu que gerou e que tem
responsabilidade para com sua prole? A responsabilidade da presença
constante deu lugar a um bom-dia ou boa-noite rápidos, um beijo que,
pelo cansaço da lida, perdeu o seu significado e não transmite a
grandeza do seu amor, muito menos fortalece a segurança que os pequenos
exigem, que necessitam. Deixou tudo isso com a "empregada", com a
"babá", na maioria despreparada para esse mister, enquanto você se
esmera, no tempo que lhe sobra, em academias para estar sempre
"esbelta", não pensando em ser saudável, mas estar sempre em forma,
linda na aparência, competindo com quem? Com os protótipos expostos em
capas de revista? Você não vai ganhar jamais. Esses modelos foram
criados apenas para ser "capa". Você não! Ou então, escolha não ter
família, não gerar, não colocar neste mundo indivíduos que não terão seu
apoio na formação de sua personalidade e que, muito provavelmente farão
parte desse bloco que será a força do amanhã? E que "amanhã" você
espera? Sonhar apenas, sem atitudes, não leva a nada. Colocar-se ao lado
dos que acham que tudo é natural, que é o curso da própria existência,
que é o resultado de um processo do qual você não fez parte atuante e,
por tal, entrega-se à neutralidade, à omissão, não é uma opção correta.
Você, querendo ou não, é responsável.
Você, professor, que hoje se
intitula "instrutor" no lugar de "educador", esqueceu que a instrução é
fundamental na educação? Deixou-se levar por propostas de pensadores
distantes da realidade brasileira que descobriram uma milagrosa
metodologia que, como eu já bradava nos anos setenta, não levaria ( como
não levou) à qualidade de aprendizado? Esqueceu sua vocação, sua
criatividade, sua capacidade de transmitir (ensinar não é apenas jogar
palavras num discurso - ensinar é "fazer aprender" - arte de um
verdadeiro Mestre). Não se iluda! Se estamos como estamos foi também
porque você fechou os olhos para as suas potencialidades, abaixou a
cabeça para métodos impostos, não cuidou de observar os resultados que
já eram manifestos há anos atrás. Deixou de criar estratégias para
atingir o educando nas suas diferenças, aceitou tacitamente as apostilas
preparadas que seus alunos "tiveram que engolir" porque a Escola, para
"aparecer", trocou a sua marca de "aqui se ensina e se aprende" por
"aqui se usa o Método Tal", como se método algum fosse, por si só, capaz
de garantir resultados satisfatórios. Aí está o presente para lhe
mostrar que errou o caminho. E o coitado do jovem, ignorante,
despreparado, iludido por filosofias vãs, com futuro incerto porque
ninguém o preparou para "algo mais", afronta, desrespeita, desdenha
daquele que deveria ser o mais importante dos seus modelos: o Mestre. E
não se encontra solução para o caos porque, novamente e sempre, não nos
preocupamos em corrigir as falhas nas suas origens. Deixamos para
resolver os problemas nas suas conseqüências.
E a causa dessa decadência está
aí. Só cego não enxerga. Falta-nos "EDUCAÇÃO", falta-nos civismo,
falta-nos amor, falta-nos religiosidade e temência e, com essa ausência
toda, falta-nos o RESPEITO, o que deixa uma fenda imensurável na
formação do caráter digno.
Afundemos todos nesse lamaçal,
se quisermos permanecer omissos, mas POUPEMOS AS NOSSAS CRIANÇAS que são
apenas vítimas do nosso desdém. Por alguns minutos, esqueçamos o hoje.
Pensemos no amanhã.
Brigue comigo, discorde, faça
o que quiser mas, por favor, PENSE e AJA.Quem sabe não seja você uma
alavanca para mover o mundo! Que sabe não lhe falte apenas uma
alfinetada no ego...Quem sabe você consiga unir as colunas desse
alicerce: pais, mestres e educandos num mesmo ideal. Jamais colocar uns
contra os outros para fugir da culpa que cabe a todos nós. Humildade
para reconhecer os erros e vontade de mudar tudo em torno desse ideal
farão desse tripé a força para exigir dos órgãos governamentais
ATITUDES, não discursos eleitoreiros populistas. Afinal, não vivemos sob a égide da democracia? E
democracia não é o governo do povo, pelo povo e para o povo? Ou não?
Exigir não é apenas um direito nosso. É DEVER.
Exija
de você, antes de exigir dos demais.
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Página editada por Cleide Canton em 06 de abril de 2010