QUE ENCANTO É ESSE?
Cleide Canton
 
 
Que encanto é esse que brota
como água pura das fontes,
fugindo altivo da rota
do barro vindo dos montes
a macular a beleza
das cores da natureza?
 
 Que encanto é esse que dança,
descontraindo a verdade,
ao doce som da esperança
escondida na saudade,
cantado na melodia
que ouço ao morrer do dia?
 
 Que encanto é esse que alcança
portais do céu, em refrão,
e as nuvens todas balança
ao som da nova canção
que chega a ouvidos moucos,
tão curtos como os de poucos?
 
 Que encanto é esse que ofusca
do amor qualquer desalento,
levando um barco que busca
ao vôo calmo do vento,
a olhar o azul de Tritão
emergindo da razão?
 
Que encanto é esse que passa
pingando tempero à vida,
sem qualquer véu de fumaça
na dor que já foi sentida,
sem medo da lua ausente,
sem tédio no sol poente?
 
 Que encanto é esse que brilha
sem se perder na eloqüência,
sem os desvios da trilha
tão ricos em aparência
sem confundir bem e mal
num mundo tão desigual?
 
 Que encanto é esse, tão terno,
despido dos vis bloqueios,
capaz de aquecer o inverno
no fogo de seus receios
ao ver que o amor vivido
no outro não faz sentido?
 
Que encanto é esse, desnudo
de mágoa, orgulho e despeito,
fazendo silente o agudo
do grito morto no peito,
cansado da longa espera
pelo amor feito quimera?
 
 Que encanto é esse? Eu lhe digo.
Na pena que assim desliza
em rimas que não mitigo,
a água santa batiza,
nomeando de POESIA
os cantos de cada dia.
 
 
Midi - Chopin - Cscherzo
Art - Cleide Canton
 
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Página editada por Cleide Canton em 27 de agosto de 2005

 

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