NÃO SE TRATA DE CULPAR
Cleide Canton
O problema sempre presente: educação, tema que
serve para discursos demagógicos, principalmente de políticos em
campanha eleitoral. Das promessas estamos cansados e descrentes.
Batendo novamente na mesma tecla, há que se buscar as causas para
sanar o mal pelas suas raízes e, nada mais do que justo, ouvir
quem viveu as mudanças ocorridas e sentiu o resultado delas. Não
tenho a pretensão de estar certa, mas posso dizer de minhas
experiências com resultados durante longos anos em que me dediquei
ao magistério. Sou do tempo das NORMALISTAS e acho que posso
declinar minhas observações. Não vou discutir as mudanças
comportamentais que ocorreram desde então, apenas ater-me aos
fatos.
No tempo em que se acreditava na capacidade da
criança e do professor, quando as classes comportavam 40 ou 45
alunos e ainda nem se pensava em separação por homogeneidade, e a
maioria dos alunos começava a escola com seis ou sete anos, sem
qualquer preparação anterior, alfabetizava-se qualquer aluno do
primeiro ano até o mês de agosto porque, em setembro, eles eram
agraciados com o primeiro livro. A festa que se fazia, nessa
época, se assemelhava a da entrega de um diploma. Claro que alguns
demoravam mais. Nem por isso eram separados ou rotulados, nem
encaminhados de pronto ao psicólogo, mas a eles era dedicada a
atenção especial do professor. Este, se não conseguia pelos
caminhos que havia aprendido, inovava e tinha condições de criar
um método diferenciado para conseguir o aprendizado. Só se passava
a problemática para especialistas quando se tinha certeza que
havia um problema, depois de esgotados todos os recursos
conhecidos. Claro também que outros alunos, após as primeiras
diretrizes, avançavam depressa, ou sozinhos ou com a ajuda da
mamãe. Então, nessa época, o professor era capaz de acomodar essa
diferenciação dentro da sala de aula, não podando o ritmo
acelerado dos que aprendiam com mais facilidade e proporcionando
aos menos rápidos a oportunidade de chegar próximo daqueles que
sobressaiam. Claro também que havia reprovações e sabia-se que o
motivo era um menor empenho do professor. Digo isto genericamente
e em condições de igualdade.
O conteúdo do programa, nessa época, comparado ao
que hoje se vê, causaria espanto a qualquer professor dos nossos
dias. Como disse, naquele tempo acreditava-se no potencial do
aluno e os resultados comprovavam essa capacidade. O mister de
ensinar trazia satisfação ao professor, no final do ano letivo, ao
verificar o quanto havia acrescentado aos conhecimentos, às
atitudes, à vontade de saber mais, de crescer, que se percebia nos
olhos "interessados dos "discípulos". Isso devia-se um fator de
primordial importância denominado "motivação". E o que era exigido
do aluno que cursava o Normal (hoje Magistério) para que criasse
situações que motivassem os educandos era, assim, uma "coisa de
louco". Havia as tais aulas de Prática de Ensino, quando o futuro
professor punha em prática o que havia aprendido, sob os olhares
atentos de todos os seus pares, que anotavam toda e qualquer falha
para ser discutida depois. E, se não conseguisse essa motivação e
quisesse seu diploma, teria que providenciar uma reformulação. Sem
a tal "motivação", nada feito. Tempos atrás, na Livraria Saraiva,
encontrei uma professora buscando, desesperadamente, um livro de
histórias infantis. Eu buscava o mesmo para presentear um
sobrinho. Ela disse-me estar desesperada porque lecionava para um
"primeiro ano" e não conhecia história alguma para usar como
motivação para seus alunos. Eu lhe disse: E porque você não
inventa historinhas? Olhou-me como seu eu fosse um ET e estivesse
falando uma língua que ela desconhecia. Nem é preciso dizer da
pena que tive dos pequeninos naquelas despreparadas mãos. Por
certo iria chegar frente aos pirralhos, abrir o livro e ler a
história. E, provavelmente, esperaria que eles a escutassem...
Isto é apenas uma pequena ilustração.
Com o passar dos anos os grandes e bem dirigidos
pedagogos foram eliminando conteúdos, cortando matérias essenciais
que muito ajudavam na formação do aluno, como Moral e Civismo,
Música e Canto, princípios de religiosidade. Até hoje não consegui
entender o porquê disso. A cada ano que vejo passar constato o
desaprendizado, a despreocupação com o saber, Hoje nossos pequenos
heróis vão prestar vestibular mal sabendo escrever. Por essas e
tantas outras razões é que vejo, muito pessimista, a preocupação
dos nossos governos em aumentar o número de vagas nas escolas,
aumentar o número de Faculdades, vibrar ao constatar as
estatísticas a provar que o número de alunos que procuram as
escolas, aumentou proporcionalmente, neste ou naquele período.
Enganem-me que eu gosto! Rotulem-me de antiquada, não me importo,
pois eu os chamo de tolos cegos. Que querem, afinal? Mostrar ao
mundo que o nosso país se preocupa com a educação aumentando o
número de canudos? De que adianta isso, a não ser como apelo
eleitoreiro? Querem quantidade sem qualidade? Não vejo a
preocupação na capacitação de professores, na melhoria do ensino
nem aumento de salários dos professores. Ruína total! Melhor é
comandar um bando de ovelhas cegas do que de ovelhas livres,
sadias de corpo e espírito e preparadas para lutar por um mundo
melhor, mais digno do ser humano, mais honrado. Lapidar a pedra
bruta até fazer dela um diamante? Para quê? E se, dentre eles,
surgir um "líder de verdade", capaz de derrubar todas essas
aberrações, acabar com essa farsa e levar o rebanho, de novo, ao
caminho certo???
Realmente, não estou adaptada a este mundo
moderno. Exemplificando, não consigo enxergar o que cada qual
ganhou com o uso absolutamente errado da internet. Que beleza é
dizer que vai haver, nas escolas, um computador por aluno! A
escola não tem necessidade de computador? O que o aluno necessita
é de PROFESSOR. Computador terá em casa. Por que digo isso? Pense
comigo:
1. Verifique, com seus filhos
pequeninos, o que mais eles procuram quando se sentam frente ao
computador. A resposta será: jogos. Ainda se fossem jogos
verdadeiramente educativos...E os felizes pais apóiam porque sabem
que, se os filhos ficarem dentro de casa, correrão menos perigo.
2. Verifique o que seus filhos
adolescentes buscam, além dos jogos ( criaram raízes e o desafio
dos novos é forte). A resposta será: todos os meios de comunicação
imediata com troca de besteiróis durante horas e horas (vejam o
Orkut deles) ou pornografia.
3. Verifique como são feitas as
consultas sobre determinados temas exigidas pelos professores que,
preferindo o que lhes parece bem feito, não mais exigem
manuscritos ( também, com as letras imperfeitas e irregulares,
difíceis para correção, quem não preferiria?) Os espertos alunos
copiam e colam um trabalho inteiro sem trabalho algum de lê-lo.
Aprenderam o quê? Ou o simples fato de copiarem e colarem lhes
garante a retenção cerebral do conteúdo não lido, para um
improvável "insight" a qualquer hora? Não estranhem, já ouvi isso
de professores.
4. Claro que, como local de
pesquisa, o computador é maravilhoso. Mas deixem os alunos soltos,
sem diretrizes, para ver se eles conseguem ler alguma coisa na sua
totalidade. Só rindo de quem acredita nisso, com raríssimas
exceções.
É bom que se comece a separar as coisas, cada qual no seu lugar e
na sua hora, lembrando sempre que, voltar atrás para corrigir o
erro e mudar o futuro não é crime. É coragem, virtude de poucos.
SP, 14/05/20101, às 13:50 horas
ARTE FINAL _ CLEIDE CANTON