Maria das Flores
Cleide Canton
 
 
Onde guardas as rosas perfumadas,
os cravos, os jasmins, as margaridas,
as palmas, as orquídeas delicadas,
violetas entre folhas escondidas?
 
Onde guardas sorrisos inocentes,
encantos a dourar o teu viver?
Fechados nas gavetas inclementes
das dores que não podes esquecer?
 
Onde guardas os sonhos que viveram
dançando nos teus dias? Já morreram?
Ou dormem em alcovas flutuantes?...
 
Maria, és a Maria dos amantes,
madona nos altares flamejantes
dos crédulos que ainda não sofreram.
 
 
SP, 14/05/2009
10:30 horas
 
 
Maria é Morta
®Lílian Maial
 

Já foi dondoca, alcoviteira e parasita,
foi traiçoeira, andou de burro e fez a vida,
já suportou tanta miséria sem comida,
subiu no palco, amamentou e foi bendita.
 
Era Maria, sem afago e, na desdita,
amou demais e se entregou e foi traída.
Foi condenada a cultivar febre e ferida,
e a renascer em cada esquina ou palafita.
 
Mas toda dor tem seu momento de revés,
e hoje a Mulher é forte da cabeça aos pés,
e, de tão nobre, em seu silêncio se curou.
 
De tanto mal, a linda flor do amor fenece,
e, em seu lugar, um peito tronco resplandece:
Maria é morta, e a Mulher ressuscitou!
 
 
 
Maria das Flores
Regina Coeli
 
Guardo perfume no sorrir da rosa,
Em fragrante poesia ao coração,
E no afagar-me, em cor, por cada mão
Que recita oração em verso e prosa.
 
Guardo risos em chuva copiosa,
Esbanjando inocência ou traição,
E sonhos num futuro puro e são,
Cevados na manhã esplendorosa.
 
Mas se eu guardar carícias e amores
Torneados em relíquias de marfim
No meu jardim de pecadoras flores...
 
... Serei Maria, e minha flor, meu fim,
Despetalada em todos os  fulgores;
Então me ajoelho e peço aos céus... por mim!
 
 
Maria das flores
Eugénio de Sá
 
 
Guardo no coração todas as flores
que a tua ilusão foi colocando
 e assim vou colorindo de mil cores
esta alegria de te estar amando
 
E essas dores que dizes que terei
já não as guardo em mim tão veementes
porque sei que me amas e que sentes
hoje por mim aquilo com que sonhei
 
E os sonhos que guardei entristecido
no baú deles repleto e envelhecido
são agora verdades gloriosas
 
Maria apiedou-se dos que a vida
havia separado, e deu guarida
no seu regaço entre jasmins e rosas

 
 
 
Maria das flores
Humberto Rodrigues Neto
 
 
A orquídea que um dia foi na mocidade,
em dias de fastígio e de ventura,
Maria inda conserva com amargura
no cofre imorredouro da saudade!
 
Do lírio, ainda em plena formosura,
guarda apenas na mente a suavidade;
hoje tímida violeta fê-la a idade,
ou um miosótis sem viço e sem candura.
 
Maria agora traz o olhar vermelho
das lágrimas choradas rente ao espelho
ante um rosto que franze e se esfacela!
 
Chorar o fim da juvenil vaidade...
eis-lhe a pena da atroz fatalidade
de um dia ter sido tão formosa e bela!
 
SP 16/05
01h55min
 
 
Maria  Somente
Jorge Linhaça
 
Cadê Maria? Maria esquecida
Foi-se no vento! O vento a levou...
Orfã da sorte, sem medo da vida,
A sua ferida o tempo apagou
 
Fez-se Maria, Maria perdida
Dama de todos, alguém a chamou
Triste Maria, Maria escondida
Sorte na vida jamais encontrou
 
Tantas Marias, Marias somente
Soltas no vento, no vento a voar
Tantas Marias , Marias semente
 
Em pleno jardim querendo brotar
A terr'é seca e o sol tão ardente
Morreu Maria sem nunca vingar.
 
 
 
Maria das flores

(Tere Penhabe)

Maria, teu sorriso é cativante,

A florescer no peito iluminado,

Pronto a servir a mais um filho amado,

Sempre que a dor se torna lancinante.

 

E às vezes, és Maria itinerante,

A olhar na estrada, o teu sonho tombado,

Na corrutela onde ele foi pecado,

Não conseguiste nunca o teu brilhante!

 

Maria, concebida sem pecado?

Ou coberta de flores no motel?

A mãe dos pecadores no aranzel...

 

O mundo não merece o teu legado,

Sendo mulher ou santa, não importa...

És a utopia que já nasceu morta.

 

Santos, 19/05/2009

 

 

Maria das flores

Carmo Vasconcelos

 

 

Doloridas violetas traz nos olhos

Pelos dedos escorrem-lhe martírios 

E como em novena ardem como círios

No seu coração nefastos abrolhos

 

Na amplidão da alma cultiva flores

Paisagem colorida de desejos

Alimenta-as com profusão de beijos

-  Na hora da colheita sobram dores!

 

Rega-as de linfa e de rubro sangue

E os bolbos e caules lambareiros

Embriagam-se e deixam-na exangue

 

Florista viciada em utopia

Só flores de vento ornam seus canteiros...

- Terra infecunda a da pobre Maria!

 

Lisboa/Portugal

Maio/2009

 

 
Maria das flores
© Joaquim Marques
 
 
Ao cruzar contigo ao romper do dia
Levavas no braço um cesto de flores
Eu te saudava: bom dia Maria
Vénias trocávamos mas com pundonores!
 
Ao mercado rumavas pra vender flores
Na tua voz doce o pregão proferias
Tenho rosas cravos tulipas amores
Teu olhar teu sorriso eram alegrias!
 
Tinhas no teu rosto o viço e a cor
Que alguém levou ao comprar-te amores
Agora não sei como são teus dias!...
 
Através do vento como melodia
Oiço tua voz apregoando flores
Que amores vendes tu agora, Maria?...
 
 
PORTUGAL
2009
 
 
Flores que redimem
Eliane Triska
 
 
São flores de Maria, o enfeite à mesa
De plástico, no madeiro ofendido.
Velha árvore - a brasa do cozido
Que chora no fogão sem mais beleza.
 
Maria os teus passos, são os meus.
Folguedos e ilusões, se comunguei,
Os risos dos meus anos, te confiei:
Àquela que seria a mãe de Deus!
 
À que me pôs no mundo, dei-lhe flores.
Pois, se a outra Maria desconserta
Santa é a imagem da virgem sem rancores!
 
Levanta-te, e sai desta calçada.
Com as mãos cheias de flores te liberta.
Sobrando-te as dores, diz-te: É nada!
 
Canoas, maio de 2009/RS
 
 
Maria, Maria... E as flores...
Cleide Canton
 
Marias tantas, flores recolhidas
em almas solfejantes de momentos
explodem em mutantes pensamentos
na pena que desliza às escondidas.
 
Marias vem à tona em mil lamentos
pudicas, sedutoras, decaídas,
de flores todas elas guarnecidas
em sorrisos que mostram sofrimentos.
 
Marias, mais que fadas, feiticeiras,
encolhem-se nas faces rezadeiras
dos poucos que conhecem seu viver.
 
Maria, és a Maria dos enredos
que agora não esconde mais segredos
nas falas que disseste sem querer...
 
SP, 05/06/2009
20:30 horas
 

FORMATAÇÃO SIMONE CZERESNIA

 

 

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Página editada por Cleide Canton em 06 de junho de 2009

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