FORA DO PERÍMETRO URBANO

Cleide Canton

 

 

        

         Certas histórias acabam marcando nossas vidas, quer pela alegria, quer pela tristeza, quer pelo aprendizado, quer pelas próprias pessoas envolvidas. Todos nós temos muitas delas para contar.

         Lembro-me que, certa vez, numa das visitas à minha querida Assis, um grande amigo, sabendo o quanto eu gostava de mangas, convidou-me para visitar uma fazenda nas redondezas.

          Aceitei prontamente o convite.

         Laury era uma figura controversa para a maioria das pessoas. Eram muitas as histórias que se ouvia dele, ora elogiando sua generosidade, ora criticando algumas atitudes, ora contando fatos que faziam dele quase que uma lenda. Para mim, sempre foi gentil, prestativo. Amigo de verdade!

         Lembro-me que, por ocasião da morte de meu avô, no momento de serem divididos os gastos, fez questão de participar da partilha como se fosse filho também, tamanho era o carinho que nos dedicava.

           Laury  não mais se encontra entre nós. Foi assassinado.

         Mas, voltando às mangas, saímos para a tal visita no seu Mustang vermelho com os bancos e demais revestimentos em couro branco que iam sendo tingidos de marrom à medida que seguíamos a estrada de terra. O percurso era pequeno. Logo chegamos ao destino.

         De longe avistei o mangueiral e fiquei maravilhada!

       Os caseiros deviam gostar muito do Laury, pois correram a nos receber muito gentilmente.

        O filho menor do casal, um guri de  seis ou sete anos, depois de acarinhado, tomou minha mão e se propôs a mostrar-me as redondezas. Fomos então, Laury, eu e o guri contornando a casa da fazenda. Fiquei encantada ao ver a quantidade de mangas forrando o chão como se fosse um tapete verde-avermelhado.

         Distraída com essa deslumbrante visão, ao dobrar a quina da casa, levei um susto ao deparar-me com um magnífico cavalo todo preto, lindo, com um brilho intenso nos seus pelos. Mas o que mais me chamou a atenção foi aquele grande olho me focalizando, altivo, imponente, com ares de realeza, com uma expressão que eu jamais perceberia se não estivesse tão perto.          Deslumbrada eu disse:

         - O que é isto? Claro que referindo-me ao olho.

         O guri, ainda segurando a minha mão, certamente pensando que por morar na cidade eu desconhecia a zona rural e tudo que havia nela, respondeu com ares de professor:

         - É cavalo, dona!

 

19/03/2003

10:42 h

  

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Página editada por Cleide Canton em 13/11/2006 

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