Olhou as folhas amareladas,
esparramadas pelo chão,
sentindo uma saudade imensa
dos verdes e rosados da
primavera.
Mas, pela primeira vez, percebeu
que havia beleza nas cores
mortas,
nos arbustos desfolhados,
no vento seco
que esparramava seus
cabelos
e lhe podava a visão.
Sentiu o cheiro da tarde
e o gosto salgado de uma
lágrima teimosa,
talvez o último vestígio
que a ligava às lembranças
que de muito tentava
apagar.
De onde viria
aquela quase paz que
começava sentir,
aquela quase vontade de correr
e abraçar o mundo,
aquela quase doçura
que cismava em fazer morada
no olhar assustado,
tentando decifrar os
sentimentos
que afloravam, vestidos de
amor?
Queria mesmo desfrutar
aquele momento como se
fosse o último,
entender o que acontecia
e qual seria a causa
da brusca transformação.
Um tanto perdida,
resolveu que se faria
linda,
que se vestiria de festa
para a festa que ela mesma
ofereceria
a si mesma.
Olhou mais uma vez para as
folhas secas,
antes de dar adeus
à saudade das lembranças
e sorrir para tudo que lhe
fora negado.
Afinal,
descobrira o outono
e faria tudo para ser
feliz,
mesmo quando ele se
despedisse.