EU POSSO

Cleide Canton
 
 
 
 
         Simplesmente, ainda tenho um coração que se recusa a aceitar o que não convém para o torrão onde fiz minhas primeiras descobertas.
 
        Puxa! Sou gente! Posso sair do chão e caminhar com minhas próprias pernas. Posso plantar, colher e sorver o sabor do fruto colhido. Posso analisar, decidir, escolher.
 
        Puxa! Sou gente! Posso admirar a beleza deste céu, deste mar, destas florestas, do sol e das estrelas. Ainda tenho visão!
 
        Posso falar, expressar minhas alegrias e minhas mágoas. Posso cantar meus sentimentos revestidos de expressões do bem, do amor e da justiça. Posso chorar todas as lágrimas para aliviar as minhas decepções. Ainda tenho voz!
 
        Posso até andar na contramão, mesmo correndo o risco de ser atropelada pela voz do povo, que dizem ser a voz de Deus ( não deixem Deus saber disso). Ainda tenho coragem!
       
        Vejam a maravilha! Eu posso!
       
       E, acima de tudo, posso tentar, tentar e tentar... Tantas vezes quantas quiser. Posso errar. Sou humana!
       
       Pena que exista, bem lá dentro de mim, algo que machuca, que me aponta os erros e me induz a não errar mais. E isso dói... Ainda tenho coração!
 
       Agora, estou ouvindo a escola ao lado tocar o Hino Nacional. Comemoração antecipada do Dia da Pátria. Engraçado! Ainda fico arrepiada ao ouvi-lo! Depois de tantos anos, o  patriotismo continua de mãos dadas com as marcas das decepções. E fico aqui imaginando  o quanto sofreram aqueles privilegiados que jamais conseguiram desvencilhar-se   do amor à terra, sendo obrigados ao exílio.
 
       Gonçalves Dias, lá pelos idos mil oitocentos e quarenta e tantos, exaltou a nossa terra com a Canção do Exílio ( e o exílio dele era apenas físico). Então, fico pensando que, se eu fosse obrigada ao mesmo, tenho plena convicção que o único sentimento que me manteria viva seria a esperança do regresso.
 
"Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu´inda aviste as palmeiras,
onde canta o Sabiá.”
 
 
         É, eu posso! Posso tudo e tanto...
         Ainda tenho fé e esperança!
         E me encho de orgulho porque nasci nesta terra.
         Posso lutar por ela, de mãos dadas com quem também a ama, tanto ou mais que eu. Posso discutir com meus iguais de peito aberto. Dou-me o direito de falar e ouvir pois acredito, fielmente, que é pelas idéias que se chega a um consenso.
 
        Ainda posso dizer: Obrigada, Terra Minha, por poder pisar este chão, mesmo chorando as catástrofes, a ausência da dignidade de viver, a incapacidade de comando, a destruição das verdadeiras lideranças,  a massificação da vontade deturpada, o apedrejamento do correto pelo politicamente correto!... Ainda posso visualizar o conjunto, o todo, sem me agarrar a pinceladas de atos ou fatos daqui e dali para formar juízo ou encobrir equívocos maiores, vícios, crimes vergonhosos vestidos de razões que não convencem...
 
        Extremos não me atraem, nem de direita, nem de esquerda, justamente porque não passei pela vida como espectadora. Vivi!
        
         Eu posso! Eu ainda posso!
         Você também pode!
 
 
SP, 02 de setembro de 2010
12:20 horas
 
 
 
 


 

 

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Página editada por Cleide Canton em 08 de julho de 2013

 

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