ESQUEÇAM MINHA COR
Cleide Canton
Tanto eu já te dei, tanto,
e tão depressa esqueceste
que, na tristeza do meu canto,
acordo o que fiz. Não mereceste!
Dei-te meu leite, alimentei-te,
branco!
Dei-te o meu sangue e o meu suor
e respondeste, com chibata, ao meu
amor.
Dei-te a lira do meu canto triste,
a voz rouca e desgastada, meu balanço,
e todos os sons que não mais alcanço.
Dei-te o ninho dos meus negros braços
que embalaram, na doçura, teus
pequenos
e historias que criei, na saudade em
pedaços,
do meu torrão natal, tempos tão
serenos.
De lá me me roubaste, sem piedade,
e me fizeste escravo da tua vontade.
Noites insones, dias que pouco vi,
mergulhos em nostalgia e oração
que fazia por mim, pelos meus e por
ti,
abrandando as revoltas do coração.
E tu fingias não saber da minha dor
nem permitias que a ti chegasse meu
clamor,
Um canto de fé da senzala se elevava.
Mãos postas, calejadas, marcas e
cicatrizes
enquanto um corpo negro no tronco
delirava
libertando a alma pura em brancos
matizes.
Clemência implorava ao seu feitor
a mãe preta com olhos de terror.
"O negro bicho tem fome...
O negro bicho na dor se consome...
O negro bicho tem fome...
O negro bicho na dor se consome..."
Sou negro irmão
na pele, na cor.
Sou negro igual
filho do mesmo Senhor.
Esqueçam, por Deus,
a minha cor!
SP, 29/05/2006
17:00 horas