DESCOMPASSO
Hilma Ranauro
Me querem mãe
e me querem fêmea,
me querem líder
e me fazem submissa,
me fazem omissa
e me cobram participação,
me impedem de ir
e me cobram a busca,
me enclausuram nas prendas do lar
e me cobram conscientização,
me tolhem os movimentos
e me querem ágil,
me castram os desejos
e me querem em cio,
me inibem o canto
e me querem música,
me apertam o cinto
e me cobram liberalidade.
Me impõem modelos
gestos
atitudes
e comportamentos.
E me querem única.
Me castram
podam
falam
e decidem
por mim.
E me querem plena...
CONTRAPASSO
Cleide Canton
Faço-me neutra,
mas esperam o meu julgamento.
Mostro-me tola
e deturpam meu pensamento.
Vêem-me várias,
mas só há uma em mim.
Buscam-me, meio,
mas esquecem que sou fim.
Guardo-me livre,
mas colocam-me algemas.
Querem soluções
e enterram-me em problemas.
Dispo-me da farsa
em atalhos do desamor.
mas escondem, em teorias,
meu juízo de valor.
Cegam, com desculpas,
a minha observância
e desafiam, sem pudor,
a minha tolerância.
Olham-me,
estudam-me,
cobram-me
desafiam-me...
E têm-me como não sou.