I  CANTO SEM VOZ
 
 
Dá-me luz num momento de saudade,
dá-me paz eu imploro sem cessar.
Já não posso esse jogo revirar
e nem quero fugir da realidade.
 
Já enfrentei tantos monstros sem vontade,
com as armas que pude manusear.
Já troquei tantos sonhos sem lutar
em momentos de anseio por verdade.
 
Sinto o peso das dores em escombros
do tempo que se aloja nos meus ombros...
Feridas que procuram linimento.
 
Os versos que dançavam na harmonia
calaram-se na nova melodia.
Foi-se o canto a chorar o desalento.
 
 
 
 II BUSCA FEBRIL
 
 
 
Foi-se o canto a chorar o desalento
sem mais elos que forcem recomeços,
pois nas lidas pagamos altos preços
pelo pouco que traz contentamento.
 
Restam sopros de vida em fingimento,
fica o tédio, remendos nos avessos
dos passos que são dados, aos tropeços,
perdendo a direção no acostamento.
 
Procura-se a parada obrigatória,
um marco sem a marca predatória
que fez morrer um sonho em fantasia.
 
Procura-se uma luz, uma morada,
a chama que norteia a nova estrada...
Foi-se a febre nas garras da ousadia.
 
  
 
III MALHAS DA UTOPIA
 
 
 
Foi-se a febre nas garras da ousadia
das dores instaladas com furor,
no peito de quem sofre pelo amor
de tempos em que nada compreendia.
 
Detalhes escondidos, sem valia,
em frases em que o verbo é sedutor,
no agora já perderam forma e cor,
esquecidos nas malhas da utopia.
 
Perdeu-se a fonte e a seca é tão brutal
que os lábios racham ao vigor do sal
e sangram na falência da alegria.
 
A sede traz angústia delirante
sob o sol que se esconde nesse instante,
mas a fome persiste, sem fobia.
 
 
 
IV  VÍCIOS RADICAIS
 
 
 
Mas a fome persiste, sem fobia,
perdida entre os desejos capitais,
sem forças junto aos outros desiguais
que o lodo pantanoso acaricia.
 
Nem grita mais em meio à desvalia,
ciente das derrotas temporais,
inerte, entregue aos vícios radicais
que impedem qualquer grito de alforria.
 
Não vê e sob as vendas da cegueira,
descarta os grãos que sobram na peneira
e poderiam ser seu alimento.
 
Murmura, sem auxílio dos vocais,
em tom menor as notas musicais
no compasso que vive um só momento.
 
  
 
V LEMBRANÇAS VADIAS
 
 
No compasso que vive um só momento
ressurgem as lembranças em torpor,
magia e encantamento do esplendor
retidos no baú do esquecimento.
 
Respira mais profundo, sente o vento
no balouçar das flores sem odor,
em galhos que perderam o vigor
suspensos nos arbustos do tormento.
 
Ensaia, uma vez mais, olhar o céu
coberto pelas nuvens, ralo véu,
e o vê também em crise de apatia.
 
Em vão procura força e já vencida
acha apenas a lágrima dorida...
Foi-se o riso da fala em euforia.
 
 
 
VI CEIFANDO O JOIO 
 
 
Foi-se o riso da fala em euforia,
perdendo-se nas teias assassinas,
formadas pra barrar luzes divinas
podadas por visões em miopia.
 
Desesperos já não causam rebeldia
pelas perdas nas quedas repentinas.
Cada qual, aceitando as suas sinas,
se fecha no seu rol sem empatia.
 
Outonos elaboram novos planos
com visão de ceifar os desenganos
dos verões que negaram provimento.
 
Invernos testemunham luta inglória
e em meio a frustrações, uma vitória:
Foi-se a mágoa e qualquer ressentimento.
 
 
 
 VII QUEM SABE AINDA
 
 
Foi-se a mágoa e qualquer ressentimento,
peso a menos no fardo a carregar,
na bagagem de quem não quis mudar
os lastros de um funesto envolvimento.
 
Talvez não fosse mesmo o seu intento
em suas próprias águas naufragar.
Quem sabe ainda pudesse navegar
nas ondas que negaram seu talento.
 
Quem sabe se uma chance aparecesse,
limpando d'alma o vil desinteresse,
o rumo fosse um outro, menos lento.
 
Por culpa do destino intransigente,
uma derrota a mais se fez presente:
Foi-se o tempo na luta contra o vento.
 
 
 
VIII ESTRELAS PERDIDAS
 
 
 
Foi-se o tempo na luta contra o vento!
Invernos e verões, em extasia,
legaram à primavera a alquimia,
mas deixaram as flores ao relento.
 
Nem mesmo a chuva fina foi unguento
nas feridas sem trato que se via.
Na febre, o coração não conseguia
matar a dor atroz do seu tormento.
 
Nem mesmo um arco-íris conseguiu
burlar toda a tristeza que seguiu
o mal que um bem mais forte venceria.
 
Sem dar tréguas, estrelas ofuscadas
perderam-se nas longas madrugadas
a esconder do meu céu uma alegria.
 
 
IX TESTEMUNHOS
 
 
A esconder do meu céu uma alegria,
as estrelas perderam seu fascínio
no dar ao Sol o cetro do domínio
e à Lua o tom cinzento, a nostalgia.
 
Meu coração, então, não percebia,
perdido na logística em declínio,
negando a sensatez do raciocínio
ao dar adeus ao rumo que seguia.
 
E mais e mais os céus testemunhavam
as lágrimas retidas que embalavam
um canto onde a beleza entristeceu.
 
Lutavam, mas não viam esperança
nos atos de comando dessa dança...
Foi-se Vênus e até Marte se envolveu.
 
 
 
X TRANSES
 
 
Foi-se Vênus e até Marte se envolveu
com carmim e com toques de carinho.
Mas não há mais amor naquele ninho
que em teias e sem luta adormeceu.
 
O sono, no seu transe em apogeu,
não achou nem um tom azul-marinho,
nem o prata que sempre dá jeitinho
no manto que se aloja atrás do breu.
 
Nas trevas não se encaixa uma esperança,
só o peso no envergar de uma balança
que mede as grandes perdas que sofreu.
 
Lembranças se acumulam em sequência
no ritmo vazio e sem cadência
nessa dança que cansa até Morpheu.
 
 
 
XI ADEUS À SORTE
 
 
Nessa dança que cansa até Morpheu
só as sombras parecem deslizar,
com gestos de desdém a proclamar
que a angústia foi o vício que venceu.
 
Nem a vela, que ao fundo se acendeu,
conseguiu um suspiro assegurar,
um vestígio que fosse a lamentar
a sorte que se foi e se perdeu.
 
A inércia fez morada permanente
no anseio que já fora resistente
e agora sobrevive da saudade.
 
A força, sem tamanho e sem remédio,
parece não poder vencer o tédio
e persiste sem rumo e sem vontade.
 
 
XII TEMPESTADE
 
 
E persiste sem rumo e sem vontade
a força que alavanca um recomeço,
sem saber desvendar-se do  tropeço
na contramão da amiga tempestade.
 
Num gesto de bravura e, sem piedade,
a desventura escuta o seu avesso
ao perceber que paga alto preço
por seus atos sedentos de maldade.
 
Conclama a ajuda plena da coragem
que, a essa altura, estava em desvantagem...
Mas foge dessa fase dormideira.
 
O amor sentindo o cheiro  de aliança
abre as portas na busca da esperança:
Chega a lua, essa eterna companheira.
 
 
 
XIII SEM REVERÊNCIA
 
 
Chega a lua, essa eterna companheira
e, liberta dos véus da negligência,
acorda cada  qual, sem reverência,
envolvendo de luz toda a cegueira.
 
As sombras escondidas na trincheira
percebem o chegar da decadência,
tecem planos, agora com prudência,
jogam água nas brasas da fogueira.
 
Mais uma vez a luz se faz presente
na busca de curar o que é doente
e que talvez o fosse a vida inteira.
 
O amor declama um verso de improviso
e a lua, ao perceber o meu sorriso,
acolhe-me, silente e sorrateira.
 
 
 
XIV NOS BRAÇOS DA LUA
 
 
Acolhe-me, silente e sorrateira,
no seu manto de mágico esplendor,
a lua, eterna musa do cantor
que na poesia encontra a voz primeira.
 
O sol que chega afoito na soleira
aplaude e faz valer o seu calor
entre as flores que aos poucos ganham cor
sobre a terra macia e hospitaleira.
 
O belo impera e grita o seu comando
e aos poucos tudo vai se acomodando
na esfera da justiça e da verdade.
 
Eu peço a Deus (quem pede tudo alcança)
sabendo que não morre uma lembrança:
dá-me luz num momento de saudade!
 
 
COROA
 
XV - FOI-SE
 
Foi-se o canto a chorar o desalento,
foi-se a febre nas garras da ousadia,
mas a fome persiste, sem fobia,
no compasso que vive um só momento.
 
Foi-se o riso da fala em euforia...
Foi-se a mágoa e qualquer ressentimento.
Foi-se o tempo na luta contra o vento 
a esconder do meu céu uma alegria.
 
Foi-se Vênus e até Marte se envolveu
nessa dança que cansa até Morpheu
e persiste sem rumo e sem vontade.
 
Mas a lua, essa eterna companheira
acolhe-me, silente e sorrateira,
dá-me luz num momento de saudade. 
 
 
 
 
 
 
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Página editada por Cleide Canton em 22 de fevereiro de 2015

 

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