ARMADILHA
José António Gonçalves

(in memoriam)
 
Hoje a tarde pertence a um dia qualquer
como as sombras chegam prisioneiras
de uma luz ou de um sol infinito.
 
Nestas ocasiões sofro por nunca aprender
a descobrir a claridade dessa viagem
com medo de ficar cativo dos seus braços.
 
É por isso que raramente lhe confesso
qual a dimensão exata do meu amor
- já que nele acabo preso logo que fica dito.
 
Assim espero por outro ano ou por
um novo castigo que não mereço
neste ou noutro natal inevitável
 
e talvez fuja pelas escarpas de um abismo
sem rosto para um futuro branco
com destino amável.
 
 

CASTIGO
Cleide Canton
 
A viver nas sombras condenas-me também,
longe do ardente sol que o pranto aqueceria.
Na radicalidade desse amargo amém
fazem-se cinzas minhas tolas fantasias.
 
Se o confessar assusta, desse amor que sentes
em passados tempos, hoje ainda  ou  aquém,
 quedarei sozinha nas brumas atraentes ,
nas escarpas do abismo, nas ondas que vêm.
 
E se o destino incerto, amável se fizer
num tal futuro branco a engolir-me os sonhos,
morrerão também os grilhões que a ti assustam.
 
Estarei sozinha no tempo que vier
 zombando da noite, dos dias enfadonhos
e de palavras tantas que teus lábios sustam.
 
SP, 28/12/2004
15:30 horas

 

FORMATAÇÃO DE CLEIDE CANTON

 

 

 
 

 

 


 

Página editada por Cleide Canton em 10 de abril de 2006

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