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Apenas mulher
Cleide Canton
Perdemos, todas nós,
na luta desordenada pelos nossos espaços.

Perdemo-nos
nas ânsias reprimidas
que explodiram muito mal definidas,
na dilatação dos nossos limitados conceitos,
na imposição dos nossos direitos,
na guerra pela isonomia
e para fazer valer a nossa democracia.

Perdemos
da nossa prole o controle e o respeito,
dos nossos pares o amor incondicional
e, de todos, os preceitos e a moral.

Ah! Conseguimos, sim,
a exaltação da beleza
através da exposição na nossa sexualidade,
o espaço na mídia para aplaudir nossa prosperidade,
nosso sucesso profissional,
nossa intimidade escancarada,
nossa oculta realeza desmistificada...

Mas perdemos o doce olhar da ingenuidade,
característica maior da nossa feminilidade.
Perdemos a satisfação de sermos cortejadas,
a espera empolgante até sermos beijadas,
as elegias ao olhar encantador,
a excitação que provocava o nosso mais leve rubor.

Mas ganhamos muito:
de descoberta a descobridora,
de desbravada a desbravadora,
de fera domada a domadora,
de rainha do lar a diretora,
de dependente a colaboradora,
de senhora a doutora.

Mulher!
Maravilha de todas as épocas!
Nessa doce ilusão de vitória
encontro-me ainda lutando
para ser apenas mulher.

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